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Quando era criança, completar a 4ª classe (actual 4º ano), parecia significar que se tinha atingido a maturidade suficiente para usar um relógio. O meu caso não foi excepção e ofereceram-me o meu primeiro relógio na sequência da minha aprovação no exame oral e escrito que fui fazer a uma escola oficial para conseguir essa minha habilitação. O meu primeiro relógio, um “Cauny” cujo destino desconheço, acompanhou-me no ciclo preparatório (5º e 6º ano) e nos primeiros anos do liceu até me encantar com a nova tecnologia dos relógios digitais, na altura com LEDs vermelhos, que nos obrigava a carregar numa botão para saber as horas. A pilha durava entre seis meses e uma hora, conforme a nossa curiosidade horária ou vaidade. No entanto eu não fazia ideia da mudança que tinha ocorrido na minha vida.

Até então a minha vida era controlada pelo movimento oscilante de uma roda de balanço impulsionada pela energia armazenada numa mola enrolada. Precisava de cuidados regulares e era intrinsecamente impreciso, sensível à posição, aos movimentos e à temperatura ambiente. Ao deixar de usar esse relógio passei a medir a passagem do tempo pela contagem do número de vezes que oscila um cristal de Quartzo em resultado do efeito piezoeléctrico. A partir daí, toda a minha vida passou a ser regulada pelas oscilações de cristais Quartzo, não só no meu relógio de pulso, mas também no computador, no telemóvel, no micro-ondas e até na máquina da loiça. O tempo medido com esta precisão, passa claramente mais depressa. Pelo menos, até este Natal.

Farto desta tirania, pedi pelo Natal um dispositivo para medir o tempo que se possa usar no pulso e cujo movimento não fosse controlado por tão vulgar mineral (o Quartzo é, a seguir ao Feldspato, o mineral mais comum na crosta continental da Terra). E foi assim que no passado dia 25, recebi o meu segundo relógio de roda de balanço, desta vez automático e fabricado na Rússia. Passei agora a ter uma desculpa para chegar atrasado nos dias mais frios.

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