A curva de reminiscência

Estar envolvido num projecto com a colaboração de investigadores na área da psicologia está certamente a mudar a minha visão do mundo.

Passei um memorável fim-de-semana em Barcelona para comemorar o aniversário de um amigo com o grupo de convidados que ele reuniu. O sucesso do evento deveu-se obviamente a mais esta ideia genialmente louca do aniversariante, mas penso que contou também com uma contribuição menos óbvia do efeito da “curva de reminiscência” da memória autobiográfica.

A psicologia diz-nos que a distribuição temporal da memória auto-biográfica (a história que a pessoa recorda de si própria) não é uniforme. Há o efeito de amnésia infantil, que descreve a ausência de recordações dos nossos primeiros anos de vida, e o efeito da “recência” que enfatiza a nossa memória dos acontecimentos dos anos mais próximos. Há também o tal efeito da curva de reminiscência (tradução de “reminiscence bump” que já vi também traduzido por “explosão mnésica“) e que se refere ao facto de que tendemos a recordar mais acontecimentos pessoais da adolescência e da idade pré-adulta, do que de outros períodos da nossa vida. Este efeito explica a nossa preferência pela música que ouvimos nessas idades e a associação a esse período da vida das nossas recordações mais agradáveis.

Aconteceu que este grupo se caracterizava pela coincidência das sua curvas de reminiscência não só temporalmente (tínhamos todos mais ou menos a mesma idade) como também geograficamente: quase todos passámos a juventude no mesmo bairro de Lisboa e muitos de nós frequentámos o mesmo Liceu.

Estas coincidências e as recordações comuns criaram um ambiente de cumplicidades que marcará este fim-de-semana na minha memória auto-biográfica muito para além do efeito da “recência”.

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O fim da tirania do Quartzo

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Quando era criança, completar a 4ª classe (actual 4º ano), parecia significar que se tinha atingido a maturidade suficiente para usar um relógio. O meu caso não foi excepção e ofereceram-me o meu primeiro relógio na sequência da minha aprovação no exame oral e escrito que fui fazer a uma escola oficial para conseguir essa minha habilitação. O meu primeiro relógio, um “Cauny” cujo destino desconheço, acompanhou-me no ciclo preparatório (5º e 6º ano) e nos primeiros anos do liceu até me encantar com a nova tecnologia dos relógios digitais, na altura com LEDs vermelhos, que nos obrigava a carregar numa botão para saber as horas. A pilha durava entre seis meses e uma hora, conforme a nossa curiosidade horária ou vaidade. No entanto eu não fazia ideia da mudança que tinha ocorrido na minha vida.

Até então a minha vida era controlada pelo movimento oscilante de uma roda de balanço impulsionada pela energia armazenada numa mola enrolada. Precisava de cuidados regulares e era intrinsecamente impreciso, sensível à posição, aos movimentos e à temperatura ambiente. Ao deixar de usar esse relógio passei a medir a passagem do tempo pela contagem do número de vezes que oscila um cristal de Quartzo em resultado do efeito piezoeléctrico. A partir daí, toda a minha vida passou a ser regulada pelas oscilações de cristais Quartzo, não só no meu relógio de pulso, mas também no computador, no telemóvel, no micro-ondas e até na máquina da loiça. O tempo medido com esta precisão, passa claramente mais depressa. Pelo menos, até este Natal.

Farto desta tirania, pedi pelo Natal um dispositivo para medir o tempo que se possa usar no pulso e cujo movimento não fosse controlado por tão vulgar mineral (o Quartzo é, a seguir ao Feldspato, o mineral mais comum na crosta continental da Terra). E foi assim que no passado dia 25, recebi o meu segundo relógio de roda de balanço, desta vez automático e fabricado na Rússia. Passei agora a ter uma desculpa para chegar atrasado nos dias mais frios.

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O Powerpoint e as listas infinitas

Quem não adormeceu embalado por um orador ao projectar o n-ésimo acetato preenchido com mais uma lista itens?

Sendo um evangelista GTD há já quatro anos, não pude deixar de ver o vídeo do seminário que o Merlin Mann fez há algum tempo na Google com o título de “Inbox Zero”. Desde a minha iniciação à metodologia GTD que procuro, com sucesso variável, manter a minha caixa de entrada vazia. No entanto, o que me chamou a atenção nesse seminário foi o modo como foi concebido e que ele detalhou no seu blog (43 folders). Isto levou-me comprar o livro “Beyond Bullet Points” de Cliff Atkinson.

A principal tese defendida no livro é a de que uma apresentação pública deve seguir os princípios básicos da dramaturgia registados por Aristóteles há 2.400 anos. Se os guionistas de Hollywood ainda hoje os seguem é porque, certamente, a coisa foi bem pensada. Assim, uma apresentação tem de começar por se localizar no espaço e no tempo, ter um protagonista, uma situação de desequilíbrio que se pretende equilibrar. O objectivo da apresentação é o de convencer a audiência da melhor solução para passar de um estado para o outro. A apresentação divide-se assim em 3 actos em que o primeiro nos coloca o problema, o segundo demonstra as razões da solução proposta ser a melhor, e o terceiro (o do clímax) pretende convencer audiência que a solução proposta nos salva do caos infernal (pelo menos na minha interpretação muito pessoal do conteúdo do livro).

Para contar esta história, o livro sugere a elaboração de um guião do tipo cinematográfico em que os acetatos funcionam como um “story board” com apenas uma imagem e uma frase por acetato.

Já criei algumas apresentações usando estes princípios e posso dizer que dá bastante trabalho sumarizar numa só frase o que pretendemos transmitir com o acetato. Penso que, pelo menos, terá a vantagem de reduzir a sonolência da audiência.


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Chocolates Vestri

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No nosso grupo de investigação há uma tradição antiga de que quem viaja deve trazer chocolates para os restantes membros da equipa que ficaram em Portugal. A tradição é tal que a Astrid Hagen, uma post-doc alemã que trabalhou connosco há alguns anos, baptizou de sala dos chocolates a nossa sala de reuniões. Com efeito parece que o número das sessões de degustação já nessa altura ultrapassava o das reuniões.

A procura de uma nova especialidade de chocolates é assim uma das actividades mais importantes nas nossas viagem de trabalho. Numa das minhas deambulações por Florença, encontrei a fábrica de chocolates artesanais Vestri (Borgo Albizi, 11r). Os chocolates têm recheios incríveis como Earl Grey, pimenta e diversos cremes de licor. Além disso têm fatias cristalizadas de laranja e de damasco cobertas de chocolate. Tive de mandar embrulhar quase um quilo de chocolate.

No entanto, o melhor da loja não é facilmente transportável: “Cioccolato Caldo Vestri”. Como os restantes produtos da casa, o chocolate quente é condimentado com pimenta e, se a quantidade não estiver ao gosto do cliente, há um pimenteiro disponível na loja. Para quem não teve a felicidade de provar a versão original, podem tentar seguir a receita disponível na Internet .

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Luvas Madova

Madova gloves shop

O que me esqueci de levar para Florença foram as minhas luvas (compradas em Monsaraz há mais de 20 anos). Sabendo da tradição local da indústria do couro, pedi sugestões aos meus colegas italianos sobre onde comprar umas luvas em Florença mas disseram-me que agora era tudo feito na China. Incrédulo, procurei na net por alguns eventuais resistentes à invasão globalizadora e lá estava: “Madova Gloves – the only glove factory in Florence”.

Para além da fábrica, dispõem de uma pequena loja na via Via Guicciardini 1R, mesmo à saída da ponte vecchio. Trata-se de uma loja tradicional com as paredes cobertas de pequenas prateleiras cheias de luvas. Em cima do balcão tem umas almofadas redondas para o cliente assentar o cotovelo enquanto as simpáticas empregadas verificam se o tamanho e a forma se adequam à mão do cliente. Com o meu melhor “italianês” escolhi umas luvas castanhas com forro de caxemira. No final lembrei-me de perguntar se também tinham carteiras (heresia): “No, mi spiace, solo guanti.”

madova-logo.pngwww.madova.com

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Concerto de Monteverdi em Florença

Claudia and the Players

Apesar do tempo limitado para visitas culturais, o programa social da conferência Maveba foi excelente (Grazie Claudia). No dia 13 de Dezembro assistimos a uma selecção de peças da “Coroação de Poppaea” de Claudio Monteverdi tocada e cantada na escadaria do Hospital de San Giovanni di Dio (Borgo Ognissanti 20). A récita foi oferecida pelos alunos de Departamento de Música Antiga da Escola de Música de Fiesole.

Ospedale San Giovanni di Dio

Este Hospital foi fundado em 1382 por Simone Vespucci (antepassado de Amerigo Vespucci que baptizou o continente Americano) e era dedicado ao tratamento dos pobres e dos peregrinos. Esta tradição de beneficiência dos mercadores e fabricantes de seda deixou imensas marcas no que é hoje o centro histórico de Florença. O Hospital foi renovado por volta de 1700 e a escadaria onde decorreu o concerto é da autoria de Tiacciati (1735).

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Florença em Dezembro

No mês passado estive em Florença para a conferência Maveba organizada pela Claudia Manfredi, minha colega na acção COST 2103. A conferência tomou-me a maior parte dos dias mas ainda assim consegui dar uns curtos passeios pela cidade de manhã cedo (antes da 9h) e no intervalo entre a última sessão e o programa social da noite (das 18h às 20h). Um aviso a futuros visitantes: as visitas aos museus com a Galleria degli Uffizi e a Galleria dell’Accademia devem ser reservadas e compradas com antecedência na internet (aqui). Como eu só descobri isso quando lá estava, só havia reservas para depois do Natal… De qualquer forma ainda tive oportunidade apreciar a cidade e deixo aqui algumas fotografias.

Ponte Vecchio

Ponte Vecchio 1Ponte Vecchio 2

Duomo di Firenze

Duomo di Firenze 1 Duomo di Firenze 2

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