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Li há uns tempos na revista Time um artigo sobre a ciência do romance que referia um conjunto de resultados científicos que procuram explicar os ritos do acasalamento na espécie humana. O artigo fazia referência a um trabalho científico publicado na revista «Evolution and Human Behavior» que resolvi agora procurar. Felizmente este trabalho, incluido na edição de Novembro de 2007, pode ser consultado gratuitamente.

É um trabalho fascinante. Os investigadores da Universidade do Novo México propuseram-se registar as gorjetas recebidas por dançarinas de «lap dancing» ao longo dos dias do seu ciclo menstrual. Como os autores assumem que os académicos estão pouco familiarizados com a sub-cultura dos clubes nocturnos para homens, começam por descrever o funcionamento dessas casas e a forma como as dançarinas aliciam os clientes a despenderem as gorjetas normalizadas de 10 dólares por uma «lap dance» na sala principal ou de 20 dólares no conforto da sala VIP.

Para este estudo foram recrutadas 18 dançarinas durante 60 dias, cobrindo um total de cerca de 5300 danças, em 296 turnos de trabalho diário com uma média de 5 horas. O ciclo hormonal da mulher foi dividido em 3 fases: a menstrual (dias 1 a 5), a fértil (dias 9 a 15) e a luteal (dias 18 a 28). Os resultados mostram que as dançarinas que não tomavam a pílula receberam em média 335 dólares por turno na fase fértil, 260 na fase luteal e 180 na menstrual. Nas dançarinas que tomavam a pílula não foi observada diferença significativa entre os rendimentos na fase fértil e na fase luteal. Estes resultados contrariam a visão de que o cio humano terá evoluído no sentido de se ter perdido ou escondido dos parceiros masculinos em consequência da organização social monogâmica que caracteriza a nossa espécie. Além disso, os resultados são particularmente relevantes por se basearem no valor económico atribuído pelos clientes das dançarinas.

Para além das diversas questões levantadas no artigo, colocou-se-me uma adicional: como é que se justificam as despesas de um estudo destes junto da entidade financiadora? Estou a imaginar a estupefacção dos auditores da Fundação para a Ciência e Tecnologia ao analisar a elegibilidade dos recibos dos pagamentos às dançarinas das casas de diversão nocturna. De qualquer forma uma coisa parece-me certa: não haveria dificuldade em encontrar bolseiros de investigação para trabalhar no projecto.